Política Refém de padrinhos
Cambalacho para reduzir pena de Bolsonaro expõe debilidade de Hugo Motta
Sem liderança sobre os colegas, Motta tem se mostrado um presidente débil, tutelado pelos padrinhos Ciro Nogueira e Arthur Lira.
10/12/2025 08h48 Atualizada há 8 meses
Por: Redação RI Fonte: Bernardo Mello Franco / O Globo
O presidente da Câmara, Hugo Motta, na votacão do projeto de lei antifacção — Foto: Brenno Carvalho / Agência O Globo

No sábado, Flávio Bolsonaro abriu um leilão para retirar sua recém-lançada candidatura à Presidência. “Eu tenho preço para isso”, informou, sem corar. O senador não quis dizer o que ou quanto cobraria para sair da disputa. Diante da insistência dos repórteres, arriscou um gracejo: “Quem dá mais?”.

Ontem o deputado Hugo Motta fez seu lance. De surpresa, pautou a votação de um projeto sob medida para reduzir as penas dos golpistas condenados pelo Supremo Tribunal Federal. O objetivo, claro, é livrar o capitão da cadeia. Pela manobra, sua temporada no xadrez seria abreviada para pouco mais de dois anos.

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O presidente da Câmara também ofereceu um mimo a Eduardo Bolsonaro. Foragido nos EUA e réu por coação no curso do processo, o Zero Três terá o mandato cassado por um motivo menor: excesso de faltas. Com isso, escapará da inelegibilidade e ficará livre para retomar a cadeira no ano que vem.

Motta ainda acenou com um terceiro brinde ao bolsonarismo: a cassação do deputado Glauber Braga, do PSOL. Ele deve ter a cabeça entregue num pacote que inclui os extremistas Carla Zambelli e Alexandre Ramagem, já condenados à perda do mandato pelo Supremo. Glauber entrou na mira do Conselho de Ética após se destemperar e agredir um provocador que xingou sua mãe. O episódio virou pretexto para retaliá-lo por sua cruzada contra a farra das emendas.

O processo contra o psolista começou com ar de perseguição e termina em tom de espetáculo. Ontem ele se aboletou na cadeira de presidente em protesto contra a cassação anunciada. Numa reação truculenta, Motta mandou cortar o sinal da TV Câmara e expulsar os jornalistas do plenário. Protegidos pela censura à imprensa, seguranças imobilizaram Glauber com violência, rasgando seu paletó. A deputada Célia Xakriabá, que tentava defender o aliado, foi arremessada ao chão.

Sem liderança sobre os colegas, Motta tem se mostrado um presidente débil, tutelado pelos padrinhos Ciro Nogueira e Arthur Lira. O cambalacho para abortar a candidatura de Flávio Bolsonaro escancarou mais uma vez sua dependência do Centrão. E expôs uma fragilidade que nem o surto autoritário de ontem foi capaz de disfarçar.