Política Acuado

Jair Bolsonaro está à beira de um ataque de nervos, afirma empresário e ex-aliado

Paulo Marinho cedeu casa para QG bolsonarista na eleição de 2018, hoje está com Doria e vê presidente fora do 2º turno

14/07/2021 08h46 Atualizada há 2 semanas
Por: Redação Fonte: Folha de S. Paulo
Bolsonaro enfrenta grave crise no governo após suspeitas de corrupção.
Bolsonaro enfrenta grave crise no governo após suspeitas de corrupção.

Hospedeiro por um ano do QG da campanha de Jair Bolsonaro à Presidência, entre 2017 e 2018, o empresário Paulo Marinho (PSDB) afirma que o presidente está à beira de um ataque de nervos diante dos desdobramentos da CPI da Covid-19.

Ao comentar o tom adotado por Bolsonaro diante das suspeitas de irregularidades nas compras de vacinas, Marinho diz que o presidente mostra destempero por ter consciência do risco de derrota na corrida presidencial de 2022.

"Conheço a peça. O capitão Bolsonaro está à beira de um ataque de nervos", diz Marinho, chegando a afirmar que Bolsonaro vai ser preso caso não se reeleja.

"O capitão Bolsonaro vai enfrentar a Justiça. E arrisco dizer que vai ser preso pelos crimes que já cometeu e ainda vai cometer até final do mandato."

Marinho —que conviveu diariamente com Bolsonaro entre julho de 2017 e outubro de 2018— diz não ter dúvidas de que o presidente tentará virar a mesa ante a ameaça de uma derrota em 2022.

"O capitão vai tentar dar um golpe com as milícias, que é o grupo que o acompanha desde o início da sua vida política. Graças a Deus, esse grupo não tem tamanho para mudar a história da democracia brasileira. Ele acha que tem. Mas não tem."

Um dos principais apoiadores da candidatura de Bolsonaro, Marinho transformou a ampla academia de sua casa em estúdio de programa eleitoral em 2018. Da época, guarda vídeos inéditos e suas recordações, acervo hoje a serviço da pré-candidatura à Presidência de João Doria (PSDB), governador de São Paulo.

Como exemplo, ele conta que, certa vez, Bolsonaro exasperou-se ao tentar, por mais de 20 vezes, gravar uma mensagem para a propaganda eleitoral.

Segundo Marinho, Bolsonaro deixou o estúdio e foi para os jardins da casa, sendo tranquilizado pelo coordenador de sua campanha à época, Gustavo Bebianno, que depois virou ministro e morreu em 2020.

"O capitão tem uma dificuldade imensa de se expressar. Quando a gente estava na minha casa gravando os programas de televisão, primeiro, ele não usava o teleprompter, ele não sabia se comunicar com o teleprompter. Tinha uma dificuldade de ler e falar. Ficava evidente que ele estava lendo."

O empresário Paulo Marinho, 68, em sua casa no Rio de Janeiro - Ricardo Borges - 28.ago.2019/UOL

 

Além dessa dificuldade de expressão, Marinho diz reunir mostras das contradições de Bolsonaro.

"Na campanha eleitoral, o capitão batia no peito na minha casa e dizia 'temos que acabar com o foro privilegiado'. A primeira coisa pela qual o Flávio Bolsonaro e o pai dele lutaram, quando o problema bateu à porta da família, foi pelo foro privilegiado para o Flávio. Isso vai ser julgado nas eleições", afirma.

Há três meses, Marinho se mudou para São Paulo disposto a colaborar com a candidatura de Doria. Ele se diz convencido de que Bolsonaro não chegará ao segundo turno. E relata que muitas pessoas riem desse prognóstico, a exemplo do que aconteceu em 2018, quando decidiu apoiar a candidatura de Bolsonaro.

"Nessa campanha, Bolsonaro vai ter que explicar o enriquecimento da família dele, dos filhos e dele pessoalmente. Esse esquema das 'rachadinhas' está mais do que provado pelo Ministério Público estadual."

"O capitão só não rodou até agora por causa da blindagem jurídica que conseguiu alcançar a nível federal. Além disso, o Adélio não estará em Juiz de Fora em 2022", diz Marinho, relatando que, ao visitá-lo no hospital, ouviu Bolsonaro dizer que já estava eleito depois de ter sido esfaqueado por Adélio Bispo durante um ato em Minas Gerais.

Para justificar o mau desempenho de Doria nas pesquisas, Marinho afirma que ele sofre o ônus de "proteger a população de São Paulo contra a Covid, coisa que o capitão não fez".

Ele reconhece ainda que Doria enfrentará a resistência dentro de seu próprio partido, sendo o deputado mineiro Aécio Neves um dos articuladores da oposição a essa candidatura.

"Tem alguns grupos no PSDB, principalmente os liderados por Aécio Neves, que estão apostando no quanto pior, melhor. Essa é uma questão da conveniência política desse grupo. Quem quer o melhor para o PSDB tem que apostar numa candidatura viável. E a única candidatura viável para o PSDB é do governador João Doria. Quem tiver o mínimo de caráter vai enxergar essa realidade", diz.

Ao falar sobre uma eventual candidatura do governador do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite (PSDB), Marinho diz que seria temerário o PSDB arriscar no novo em detrimento do único nome com chance de tirar Bolsonaro do segundo turno.

Sobre o fato de o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso ter admitido a hipótese de o PSDB apoiar um nome de outro partido na disputa presidencial, Marinho lembra que FHC já se posicionou contrariamente a candidaturas de Doria. Todas acabaram vitoriosas.

"O presidente Fernando Henrique atua quase como uma entidade acima do PSDB. Ele tem autoridade para falar o que fala. É um homem que todo mundo respeita. Em relação ao Doria, ele errou as duas vezes em que apostou contra. Essa coisa está dando certo para o João. É mais um elemento para validar a candidatura do governador João Doria", diz.

Após dois anos na presidência do PSDB do Rio de Janeiro, Marinho deixou a função em junho, dizendo-se impressionado com o tamanho da presença do tráfico e da milícia no processo eleitoral municipal de 2020.

Ele descreve o caso do dono de um cursinho pré-vestibular que pretendia concorrer a vereador com apoio dos moradores de uma favela na zona norte do Rio. Desistiu após ser desencorajado por traficantes.

"Na véspera de a gente fechar a nominata, ele disse 'infelizmente não vou poder mais ser candidato. Fui chamado pelo pessoal do tráfico da minha região e eles disseram que lá eles apoiarão um candidato e não poderá haver outro candidato. E meu curso de pré-vestibular é lá, os meus alunos estão ali. Não tenho como desacatar essa ordem sem sofrer represália'", lembra Marinho.

 

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