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Governo propõe novo Bolsa Família baseado em dinheiro que não existe

Eles afirmam que o orçamento do programa se transformaria em uma "peça de ficção". Também há dúvidas se esse procedimento respeita a LRF (Lei de Responsabilidade Fiscal).

Por: Redação RI Fonte: Uol
18/07/2021 às 10h11
Governo propõe novo Bolsa Família baseado em dinheiro que não existe
Governo quer bancar novo Bolsa Família com tributação de dividendos. Entretanto, reforma do Imposto de Renda não foi aprovada | Imagem: Divulgação/ Prefeitura de Cuiabá

O governo quer autorização do Congresso para que a criação do novo Bolsa Família conte com recursos que ainda não existem e que estariam previstos em projetos ainda em debate pelos parlamentares. Contabilizar dinheiro que não existe foi criticado por especialistas em finanças públicas ouvidos pelo UOL. Eles afirmam que o orçamento do programa se transformaria em uma "peça de ficção". Também há dúvidas se esse procedimento respeita a LRF (Lei de Responsabilidade Fiscal).

A tributação de dividendos, prevista na reforma tributária que é debatida na Câmara dos Deputados, é a aposta do governo para bancar o novo programa social. Quando o governo cria uma despesa permanente, precisa detalhar a fonte de recursos que vai bancar o programa. Com a proposta, a equipe econômica quer condicionar a reformulação do Bolsa Família à aprovação da reforma do Imposto de Renda.

O governo quer aumentar o orçamento do Bolsa Família em R$ 20 bilhões, de R$ 35 bilhões para R$ 55 bilhões. A equipe econômica pretende bancar o aumento no valor do benefício com a tributação de dividendos, estimada em R$ 77,6 bilhões pelo relator da reforma tributária, deputado Celso Sabino (PSDB-PA). Mas esses valores não são reais ainda e podem não existir.

"Estão criando uma peça de ficção para o orçamento do novo Bolsa Família. O relatório da reforma tributária diminui a arrecadação do governo, e os secretários de Fazenda de estados e municípios dizem que a proposta também diminuirá os repasses que eles recebem. Como vão bancar o Bolsa Família se prefeitos e governadores são contra o relatório da reforma? A reforma tributária pode não ser aprovada, e os recursos que garantiriam o programa social não vão existir". Raul Velloso, economista.

 

Governo faz chantagem com parlamentares, diz economista

 

O economista Raul Velloso, especialista em finanças públicas, declarou que o governo tem feito chantagem com os parlamentares ao exigir a aprovação da reforma do Imposto de Renda para bancar o novo programa social. Velloso disse que não está claro se a autorização pedida pelo governo cumpre os requisitos da LRF (Lei de Responsabilidade Fiscal), que determina que a criação de uma despesa depende da definição da receita que bancará o programa.

Segundo ele, a primeira versão da reforma tributária enviada pelo governo ao Congresso poderia bancar o programa social porque aumentaria a arrecadação. Entretanto, as mudanças feitas pelo relator, com o aval do ministro da Economia, Paulo Guedes, inviabilizam que recursos sejam direcionados para bancar um novo programa social.

"Essa conta não fecha. Como o governo vai bancar um novo programa social, com aumento de despesa, se o que vai ocorrer é queda na arrecadação? Essa proposta é maluca", declarou.

 

Proposta cria incerteza para programa social, diz economista

 

O economista Marcos Mendes declarou que o projeto traz grande incerteza porque não há garantia de que a reforma tributária será aprovada e que os recursos da tributação de dividendos serão direcionados para bancar o novo programa social.

"Essa proposta desrespeita o bom senso e escorrega nas frestas da Lei de Responsabilidade Fiscal. Entre a lei e o bom senso, temos que ficar com o bom senso. Essa medida abre precedente para que esse princípio seja usado para aumento de outras despesas". Marcos Mendes, economista e pesquisador do Insper.

Segundo ele, a proposta traz uma contradição econômica essencial porque o relatório da reforma tributária apresentado pelo deputado Celso Sabino (PSDB-PA) prevê uma perda de arrecadação de R$ 57 bilhões em 2022 e 2023.

"O relatório da reforma tributária derruba a receita do governo. E eles querem pegar um pedaço do projeto para compensar a criação de um programa social. O governo está querendo fazer um jogo bobo. Ele está dizendo que, se a tributação de dividendos não for aprovada, também não será aprovada a criação do novo Bolsa Família", declarou.

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