
O advogado Willer Tomaz, amigo de Flávio Bolsonaro (PL-RJ), recebia minutas de decisões do STJ (Superior Tribunal de Justiça) e do MPF (Ministério Público Federal) antes da publicação, aponta investigação da Polícia Federal.
Um dos interlocutores de Tomaz é o procurador aposentado Antônio Carlos Simões Soares, também ligado a Flávio Bolsonaro. Ele é suspeito de vazar informações sigilosas e combinar o conteúdo de pareceres com o advogado.
Soares foi subprocurador —topo da carreira no MPF— e chegou a ser cotado para o cargo de procurador-geral da República em 2019, no governo de Jair Bolsonaro, devido à proximidade com Flávio e Willer. Ele se aposentou em março deste ano.
O UOL não conseguiu contato com Soares —o espaço está aberto a manifestações. O STJ informou que abriu uma investigação sobre o caso.
A PF suspeita que Tomaz tenha obtido acesso antecipado a decisões do Superior Tribunal de Justiça através de Soares e outros interlocutores, como um funcionário de informática do próprio tribunal.
O escritório recebia informações antecipadas de qual seria o resultado de julgamentos —favorável ou não— e, com base nisso, mudava sua estratégia, deixando de apresentar determinados recursos, por exemplo, diz a PF.
Procurado, Tomaz "nega categoricamente ter obtido acesso irregular ou não autorizado a decisões judiciais ou pareceres sigilosos, assim como ter interferido ou ajustado o conteúdo de manifestações do Ministério Público Federal".
"Sua atuação profissional sempre observou a legislação e as prerrogativas profissionais da advocacia, pelos meios institucionais e processuais legítimos. As insinuações divulgadas são infundadas, distorcem o exercício regular da atividade profissional e configuram desinformação", disse, em nota.
Como o UOL revelou, Willer e Flávio Bolsonaro eram beneficiários de uma mesma conta bancária no Santander, segundo a investigação da PF, e o advogado bancou viagens de Flávio na Europa.
Tomaz foi alvo de busca e apreensão da PF em agosto, por suspeita de lavar dinheiro desviado das aposentadorias para o senador Weverton Rocha (PDT-MA), que também é investigado.
Terreno em Brasília
Em um caso julgado em setembro deste ano em que advoga para duas construtoras, por exemplo, o escritório de Willer recebeu a minuta de um acórdão do STJ em 16 de setembro, antes da assinatura, no dia 18.
O processo se refere ao destino de um terreno em Brasília onde ficava a antiga Academia de Tênis. O STJ reconheceu que uma família de herdeiros tem valores a receber de construtoras —eles brigam na Justiça por R$ 176,4 milhões.
Willer advoga para as construtoras, Attos Empreendimentos Imobiliários e HC Incorporadora. Em setembro, antes da decisão do STJ, elas desistiram de um recurso que já estava na pauta para julgamento.
Pedidos de desistência
Em outro processo, o senador Weverton Rocha, cliente de Tomaz, processa a Editora Abril, que publica a revista Veja, por danos morais. O recurso entrou na pauta da quarta turma do STJ em setembro de 2025.
Na noite anterior à sessão, Weverton e a Abril protocolaram pedidos de desistência dos recursos. Segundo a PF, o escritório de Willer já sabia qual seria o resultado do julgamento quando decidiu desistir.
Outros casos em que Willer também teria recebido informações sigilosas envolvem a disputa entre J&F e a Paper pela Eldorado Celulose, o espólio de Cid Ferreira, fundador do falido Banco Santos, e a Difusora Comunicação, empresa do advogado.
Há sete casos elencados pela PF em que Soares é suspeito de antecipar e moldar o conteúdo de pareceres do MPF aos interesses de Willer.
O material foi enviado ao MPF para opinar sobre o foro adequado ao procurador. Como subprocurador, ele seria investigado pelo STJ, mas, após a aposentadoria, o entendimento atual é que o caso iria para a primeira instância.
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