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Bolsonaro estabelece parasitismo político em quem atua contra o vírus

O parasitismo político adotado pelo presidente da República, apesar de questionável, deve ter efeito positivo em sua popularidade.

21/04/2020 às 08h12
Por: Redação RI Fonte: Coluna Leonardo Sakamoto
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 'Não queremos negociar nada', disse o presidente Jair Bolsonaro em ato Imagem: EVARISTO SA/AFP e Getty Images
'Não queremos negociar nada', disse o presidente Jair Bolsonaro em ato Imagem: EVARISTO SA/AFP e Getty Images

Enquanto terceiriza suas responsabilidades durante a pandemia de coronavírus, Jair Bolsonaro atua para levar o crédito por ações e resultados que ocorreram apesar dele ou não graças a ele. O parasitismo político adotado pelo presidente da República, apesar de questionável, deve ter efeito positivo em sua popularidade.

Deve-se ao Congresso Nacional a aprovação da renda básica emergencial de R$ 600,00 a fim de garantir a sobrevivência de trabalhadores informais e por conta própria durante a crise. Se dependesse do governo federal, o benefício seria muito menor, insuficiente para comprar uma cesta básica completa nos valores estabelecidos pelo Dieese, referência na medição do custo de vida dos trabalhadores, como esta coluna mostrou.

Os debates e projetos sobre o tema na Câmara dos Deputados são anteriores a qualquer ação concreta por parte do governo federal. E o presidente entrou apenas no final, quando a aprovação já era dada como certa, ao sugerir um valor um pouco maior a fim de reduzir o protagonismo de deputados e senadores. Ainda assim, sua equipe econômica arrepiou-se pela ampliação da base de beneficiários proposta pelo Senado Federal.

Há indícios de que o impacto da medida já foi sentido na popularidade do presidente. De acordo com Mauro Paulino e Alessandro Janoni, do Datafolha, "mais de 80% dos três pontos de oscilação positiva que Bolsonaro apresentou na última pesquisa chegam dos estratos de menor renda, o que sugere reflexos de ações específicas na área econômica como vetores de influência, especialmente o auxílio".

Ao mesmo tempo, sinais de que a curva de contágio do Estado de São Paulo não segue a trilha daquela do Estado de Nova York, com seus 17.671 mortos até agora, indicam que as medidas de isolamento social podem estar surtindo efeito. A demanda por hospitais e UTIs pode ter sido alongada, o que significa que seu impacto foi reduzido. Ainda ocorrerá um colapso, mas deve ser menor e mais curto.

Isso tende a salvar vidas, mostrando que governadores, prefeitos e a equipe anterior do Ministério da Saúde estavam certos e o presidente da República, que segue criticando quarentenas e defendendo apenas de segregação de idosos e pessoas imunodeprimidas, errado.

Porém, quanto mais as medidas de isolamento horizontal surtirem efeito, reduzindo o impacto da pandemia, mais Bolsonaro irá dizer que elas não serviram para nada. Venderá isso como a prova de que estava certo em chamar a pandemia de "gripezinha" e "histeria" e que a paralisação de atividades não essenciais era desnecessária.

Ironicamente, vai acabar se beneficiando daquilo que sistematicamente ataca, uma vez que o respeito à quarentena pode fazer com que a economia não precise de um fechamento mais profundo, nem que se repita por tantas vezes. Ou seja, o respeito ao isolamento garante um impacto menor na queda do PIB do que uma situação de desastre humanitário.

Como seu pescoço depende da retomada do país pós-Covid-19, ele deveria ser grato pela presença de adultos responsáveis que impedem que ele cause problemas ainda maiores.

Caso tivesse levado a sério as aulas de biologia do ensino fundamental, entenderia como seu comportamento pessoal é um mau exemplo para a propagação do vírus ao promover contato físico e aglomerações, tossir sem cobrir corretamente a boca, esfregar o nariz na mão antes de cumprimentar seus fãs.

Mas também se recordaria das formas de interação entre seres vivos. E, talvez, percebesse que sua relação com os Poderes Legislativo e Judiciário, bem como com outros entes da federação, deveria ser de simbiose - em que a relação é benéfica para ambos. E não de parasitismo, em que a Presidência da República explora, suga e provoca danos aos demais para sobreviver. Como um carrapato.

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