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MP afirma que presos da Cadeia Pública de Altos foram envenenados

Seis dos presos faleceram vítimas da intoxicação. A Secretaria de Justiça negou que essa seja a causa da intoxicação.

15/06/2020 às 13h13 Atualizada em 15/06/2020 às 13h20
Por: Redação RI Fonte: G1 Piauí
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Suspeito de ferir namorada e matar amiga atropelada foi transferido para a Cadeia Pública de Altos — Foto: Francisco Leal/Ccom
Suspeito de ferir namorada e matar amiga atropelada foi transferido para a Cadeia Pública de Altos — Foto: Francisco Leal/Ccom

Uma investigação do Ministério Público do Piauí concluiu que os quase 200 presos da Cadeia Pública de Altos que adoeceram durante os meses de maio e junho foram vítimas de envenenamento, causado por uma dedetização realizada sem os cuidados necessários, no início de maio. Seis dos presos faleceram vítimas da intoxicação. A Secretaria de Justiça negou que essa seja a causa da intoxicação.

O coronel Luís Antônio Pitombeira, diretor de assistência militar da Secretaria de Justiça, argumentou em entrevista à TV Clube que os detentos da CDP de Altos começaram a apresentar sintomas dias antes da dedetização citada pelo Ministério Público, e que a dedetização teria sido realizada apenas na parte externa da unidade, e não dentro das celas ou áreas com que os presos tenham tido contato.

Segundo o coronel, a secretaria criou um comitê de gerenciamento de crise que atua para descobrir as causas do surto que atingiu a unidade prisional, mas o comitê não teria chegado a uma conclusão até o momento, e aguarda resultado de exames laboratoriais. Ele disse ainda que nove presos tiveram diagnóstico confirmado para leptospirose, doença transmitida pela urina de ratos.

A empresa que executou o serviço disse em contato com a TV Clube que realizou a dedetização apenas no dia 16 de maio, data posterior ao aparecimento de sintomas nos detentos, e que o trabalho foi feito apenas em áreas externas da unidade, e não dentro de celas. Todo o procedimento teria sido acompanhado por servidores de Secretaria de Justiça.

Entretanto, o Ministério Público divulgou um Certificado de Controles de Pragas assinado pela empresa Foco Serviços e Projetos no dia 15 de maio, em que a empresa declara ter realizado os serviços de dedetização na Cadeia Pública de Altos, além dos serviços de controle de pragas urbanas, desratização e descupinização.

Investigação do Ministério Público

Segundo o promotor Elói Pereira Júnior, da vara de execuções penais do MP, a conclusão vem de uma análise pericial em mais de cem prontuários médicos dos presos que adoeceram, feita pelo setor médico do Ministério Público, e das conclusões dos médicos que atenderam os detentos tanto nos hospitais como dentro da Cadeia Pública de Altos. Segundo o promotor, a conclusão é unânime entre os médicos.

A dedetização teria acontecido no início do mês de maio, realizada por uma empresa particular a serviço da Secretaria de Justiça. Segundo o promotor, o serviço custou cerca de R$ 22 mil e uma nota fiscal eletrônica da prefeitura de Teresina registrando o pagamento do serviço foi emitida no dia 7 de maio.

"Um médico que atendeu presos na unidade revelou que essa dedetização foi feita sem cuidados necessários. Teria que deixar pelo menos 12 horas as pessoas distantes do local onde foi aplicado o produto, o que não aconteceu", disse o promotor.

Diante dos resultados, o Ministério Público recomendou a exoneração do secretário de justiça Carlos Edilson. O promotor disse ainda que as informações obtidas por essa investigação do Ministério Público serão remetidas para o Governo do Estado, para a Delegacia de Direitos Humanos, que investiga o caso, para a promotoria de justiça e para o Ministério da Saúde.

"Não anunciamos antes porque não tínhamos essa documentação. São provas de que houve uma dedetização no inicio de maio e, a partir daí, que os presos começaram a adoecer, aproximadamente 200. Seis deles vieram a falecer. Se esse fato fosse divulgado antes, poderíamos ter evitado mortes e adoecimentos", disse o promotor.

Leptospirose descartada

Médicos descartaram hipótese de leptospirose em videoconferência com promotores — Foto: Ministério Público do Piauí/ Divulgação

 



O Ministério Público divulgou também nesta segunda-feira (15) uma videoconferência feita entre promotores e alguns médicos que atenderam os detentos. Entre os profissionais de saúde, esteve o médico Walfrido Salmito, infectologista da Fundação Municipal de Saúde. Ele afirma aos promotores que foi chamado até o local por conta da suspeita de infecção por leptospirose, mas que “de cara” descartou a hipótese.

O infectologista conta que atendeu 87 pacientes entre os dias 13 e 15 de maio. Segundo ele, a quase totalidade dos pacientes apresentavam os mesmo sintomas: pernas inchadas, vômitos e dores gastrointestinais. O médico disse ter visto na ocasião entre 10 e 15 exames para leptospirose com resultados negativos.

“Pedi ajuda ao Marcelo e ao Davi para que avaliassem comigo, fazendo os outros exames. Todos os achados compatíveis com intoxicação exógena. E não achamos nada para leptospirose nem outras doenças infecciosas”, diz o Walfrido Salmito no vídeo.

“Dando uma olhada na literatura, a gente viu que essa exposição continuada, ou seja, não foi lavada a cela depois dessa dedetização, que todos os presos disseram que depois dessa dedetização tiveram problemas de saúde. [...] mas não tenho nenhuma dúvida de que é intoxicação exógena, provavelmente por piretroides, que é o que foi aplicado lá”, disse.

Em um certificado também divulgado pelo Ministério Público a empresa que teria realizado os serviços de dedetização na CDP de Altos informa que entre as substâncias utilizadas na dedetização foi a cipermetrina 250 CE, para controle de insetos rasteiros. Esse produto possui inseticida piretroide em sua composição.

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