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Bolsonaro mira seu único projeto para o país, a própria reeleição

O único projeto que o presidente possui é o que garante a sua sobrevivência política e pavimenta sua reeleição.

03/02/2021 às 08h59
Por: Redação RI Fonte: Coluna do Leonardo Sakamoto
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O presidente da república, Jair Bolsonaro, acompanhado do ministro da economia, Paulo Guedes - Imagem: Mateus Bonomi/Estadão Conteúdo
O presidente da república, Jair Bolsonaro, acompanhado do ministro da economia, Paulo Guedes - Imagem: Mateus Bonomi/Estadão Conteúdo

Nenhuma reforma proposta pelo governo federal tem poder para garantir recursos a fim de encher a barriga de brasileiros pobres em meio à pandemia de coronavírus. Nem de evitar a quebra de micro e pequenos negócios durante a segunda onda da covid-19. Muito menos de começar a reduzir de forma consistente o desemprego de mais de 14 milhões.

A repetição insistente desse argumento e o lançamento de ideias sem lastro na realidade por parte de membros do governo em eventos com o setor financeiro reforçam, na verdade, que Jair Bolsonaro e equipe não têm projeto para o país. Pior: estamos à deriva, indo para um iceberg, sem botes salva-vidas para todos enquanto o presidente canta para entreter a sua claque.

O discurso vendido pelo ministro Paulo Guedes revela-se um grande programa de ilusionismo. Como uma parte do mercado gosta de um autoengano, principalmente se ele tiver um viés de confirmação de suas crenças, abraça o truque sem refletir.

A aprovação da Reforma Administrativa e da Reforma Tributária podem até ser uma sinalização positiva para investidores, mas elas não vão produzir recursos necessários no orçamento para as necessidades da população neste momento.

O que lembra uma história que seria cômica, se não fosse trágica. Em março do ano passado, Paulo Guedes disse que com até R$ 5 bilhões, "a gente aniquila o coronavírus". Segundo ele na época, "já existe bastante verba na Saúde, o que precisaríamos seria de um extra". Detalhe: o rombo do país no primeiro ano de pandemia foi de R$ 743 bilhões.

E como solução para o coronavírus, que já matava brasileiros naquele mês de março, ele recomendou um remédio incerto e que levaria meses, as tais reformas: "Se promovermos as reformas, abriremos espaço para um ataque direto ao coronavírus". Representante de um governo desconectado da realidade, o ministro não compreendia que uma tragédia já estava se abatendo no país.

A PEC (Proposta de Emenda à Constituição) Emergencial, que deve ser colocada em discussão pela nova cúpula do Congresso Nacional, pode estabelecer gatilhos de ajuste fiscal para o governo em momentos de crise. O problema é que isso pode significar travar aumentos de aposentadorias de quem ganha dois salários mínimos, bloquear reajustes de professores e enfermeiros que ganham pouco e fazer malabarismos com beneficios sociais para abrir espaço para o auxílio emergencial. Teremos o que Bolsonaro prometeu não fazer: tirar dos pobres para dar aos paupérrimos.

O que deve acontecer é alguma flexibilização do teto de gastos, com a liberação de recursos extraordinários para o benefício.

Mas seria uma boa hora para rediscutir a própria regra do teto de gastos. E, quem sabe, adiantar o debate sobre o aumento de impostos dos super-ricos (ei, não é você que comprou um Corolla à prestação, ok?) como tem sido feito em outros lugares do mundo para ajudar a bancar os custos da pandemia. Isso, contudo, dificilmente irá acontecer. Há um dogma na mesa mais importante que a vida.

A Câmara e o Senado, comandados pelo centrão, vão aprovar algum auxílio emergencial. Não se sabe de quanto, nem por quanto tempo, mas provavelmente será menor e mais curto do que deveria. Enquanto nega essa intenção para o mercado, Bolsonaro torce por isso, silenciosamente. Afinal, como efeito colateral, a sua popularidade de Bolsonaro - que começou a cair após o fim do pagamento das parcelas - dará um grau.

O único projeto que o presidente possui é o que garante a sua sobrevivência política e pavimenta sua reeleição.

Líderes chegam ao poder com o objetivo de garantir qualidade de vida para seu povo. Nesses casos, o poder é um meio. Oportunistas chegam ao poder com o objetivo de se manter o poder. Para Bolsonaro, poder é um fim em si. A redução da dignidade coletiva é o meio.

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