
O voto pedestre de Nunes Marques contra a suspeição de Moro nos processos da Lava Jato apenas escancarou o medo que Bolsonaro tem de Lula.
Indicado pelo presidente para o STF, para ocupar a vaga de Celso de Mello _ valha-me Deus _, o novo ministro apenas cumpriu seu papel de sabujo para evitar que Lula pudesse concorrer em 2022.
Mas, logo em seguida, Cármen Lúcia mudou seu voto e lacrou o caixão do justiceiro da Lava Jato, colocando o petista novamente no jogo da sucessão presidencial.
Ato contínuo, começou a busca de uma nova "terceira via" pelas viúvas do lavajatismo, que fizeram do antipetismo sua razão de ser.
Isso vem de longe, como costumava dizer Leonel Brizola, que disputou pau a pau com Lula uma vaga no segundo turno em 1989, na primeira eleição presidencial pós-ditadura.
Já naquela época, a direita enrustida, na falta de um candidato competitivo, investiu numa "terceira via" contra o monstro "Brizula", dois candidatos de esquerda que ponteavam as pesquisas e assustavam o mercado e os militares.
E acabaram elegendo o outsider Fernando Collor, uma criação da mídia embalada no modelo de "caçador de marajás", que acabou sendo impichado por corrupção em 1992.
Em 2018, repetiram a dose na "difícil escolha" entre a civilização e a barbárie, e acabaram abrindo caminho para a eleição de outro outsider, Jair Bolsonaro, um produto da Lava Jato, para não permitir a volta do PT ao poder.
Moro seria a opção dessa turma para 2022, para impedir a reeleição de Bolsonaro e deixar o PT fora do segundo turno.
Mais uma vez sem candidato viável, a velha direita agora chamada de "centro democrático", começou a testar o nome de um monte de cacarecos, de Huck a Mandetta, e cogita até a volta de Alckmin, que levou uma tunda em 2018, com apenas 4% dos votos.
Os tucanos João Doria, de São Paulo, e Eduardo Leite, do Rio Grande do Sul, são lideranças regionais que ainda não alçaram voo além das fronteiras dos seus estados. De Ciro Gomes ninguém fala mais.
Chega a ser comovente o esforço de colunistas e analistas na imprensa que procuram um candidato alternativo, qualquer um, para enfrentar Lula e Bolsonaro.
Enquanto isso, o calejado Lula de tantas vitórias e derrotas nas eleições presidenciais, está tranquilo no seu canto, curtindo os netos, só assistindo à dança de nomes bizarros para enfrentá-lo, com Bolsonaro derretendo nas pesquisas.
Mas não foi só o capitão que perdeu o prumo com a volta de Lula à cena política. O mantra "tudo menos o PT" agora é repetido para evitar a "polarização dos extremos", como se pudesse haver algum tipo de comparação possível entre o ex e o atual presidente.
A tal autocrítica sempre exigida do PT poderia ser feita por partidos e setores da imprensa que fizeram de Moro um "herói nacional", agora desmascarado pelo STF.
Se não fizer mais nada, Lula entrará em 2022 novamente como a maior liderança política do país, podendo liderar um amplo arco de alianças de centro-esquerda, capaz de apresentar um projeto para a reconstrução nacional após o tsunami bolsonarista.
Nada como um dia após o outro, de preferência com uma noite no meio, para a gente poder descansar.
A Justiça, como se diz, tarda mas não falha. O passar do tempo, de uma hora para outra, transforma justiceiros de arrabalde em vilões de pornochanchada e réus condenados em vítimas da corrupção judicial, em nome do combate à corrupção.
Ver a cara de bunda das viúvas de Moro, dos arrependidos de Bolsonaro e da turma do voto em branco não tem preço.
Vida que segue.
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