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Delegada da PF foi retirada de caso após pedir busca no Planalto

Objetivo da agente era investigar ações e financiamento de atos antidemocráticos

16/06/2021 às 08h50
Por: Redação RI Fonte: Uol
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Denisse Ribeiro, delegada da PF | Imagem: Reprodução/TRF-4
Denisse Ribeiro, delegada da PF | Imagem: Reprodução/TRF-4

"Seguindo a orientação da direção-geral" da PF (Polícia Federal), a delegada responsável pela Operação Lume, Denisse Ribeiro, foi retirada da investigação 14 dias depois de pedir ao STF (Supremo Tribunal Federal) uma busca e apreensão no Palácio do Planalto, sede do governo federal.

O pedido para a realização da segunda fase da ação, que investiga a organização e o financiamento de atos antidemocráticos, foi feito em 25 de junho de 2020.

Os alvos da delegada da PF seriam a Secretaria de Comunicação da Presidência da República, que funciona dentro do Planalto e tem repartições na Esplanada, o Ministério da Mulher, Família e Direitos Humanos, os endereços do secretário de Comunicação Fábio Wajngarten e um canal bolsonarista no YouTube.

Cinco dias depois, outro delegado, Fábio Shor, pediu ao STF buscas nas três agências de publicidade com contratos com a Presidência: Artplan, Calia e NBS-PPR.

O objetivo das buscas era procurar provas de que agentes públicos distribuíram verbas do governo para canais bolsonaristas que incitavam movimentos na internet e nas ruas pelo fechamento do Congresso Nacional e do Supremo e a volta da ditadura militar e do AI-5 (Ato Institucional número 5), o mais duro dos anos de repressão.

 

Reuniões e transferência

 

Oito dias depois de o pedido ser enviado ao STF, o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) se reuniu com André Mendonça, então ministro da Justiça (pasta na qual a PF está alocada), de acordo com a agenda oficial de 2 de julho. Em 6 de julho, Mendonça se encontrou com o então diretor-geral da PF, Rolando Alexandre Souza.

Após esses encontros, no dia 9 de julho, mais precisamente ao meio-dia, o diretor de Combate ao Crime Organizado da PF, Igor Romário, transferiu, por ordem de Souza, a investigação do setor de Denisse para o Sinq (Serviço de Inquéritos), órgão que também funciona na sede da PF. A justificativa oficial da direção era que só o Sinq poderia conduzir investigações (o SPE, onde Denisse estava lotada, é um setor administrativo e de planejamento).

A pedido da corporação, a policial fez um relatório parcial das investigações que incluía, também, a informação sobre sua saída. O documento foi remetido ao relator do caso no STF, ministro Alexandre de Moraes.

Àquela altura, porém, já existia uma ordem do próprio ministro do STF para que ela e outros delegados fossem mantidos no inquérito dos atos antidemocráticos. Ela retomou as investigações na noite do dia seguinte, 10 de julho, uma sexta-feira, depois da objeção da Corregedoria da PF.

As buscas, porém, nunca foram realizadas.

A assessoria da Polícia Federal não prestou esclarecimentos e não forneceu cópia do processo de mudança dos delegados do caso. O Palácio do Planalto não comentou.

Como mostrou o UOL, em dezembro do ano passado, a PF pediu para aprofundar investigações na "hipótese criminal" segundo a qual o presidente Bolsonaro e seus filhos mobilizaram redes sociais para atos antidemocráticos nas ruas. O perfil Bolsonaronews, rastreado no pelos policiais no inquérito, foi acessado da casa de Bolsonaro no Rio de Janeiro e do Palácio do Planalto.

Mas, em junho deste ano, a PGR, comandada por Augusto Aras, deu parecer para arquivar as investigações.

 

Ministério Público destacou "gravidade" das medidas

 

Em parecer emitido em 31 de agosto, a PGR destacou "a gravidade da natureza das medidas de busca e apreensão". "É que conforme se constata da expressão da autoridade policial, representou-se pelas medidas ostensivas não apenas nas sedes das ministeriais [sic] como, igualmente, em 'todos os locais que potencialmente guardem relação com os fatos'", escreveu o vice-procurador-geral da República, Humberto Jacques de Medeiros, número 2 de Augusto Aras.

Jacques disse que os documentos poderiam ser obtidos sem buscas, com o uso de ofícios a serem feitos por uma investigação cível realizada pelo Ministério Público de primeira instância.

Moraes, do STF, analisou o caso em 9 de novembro, mas não autorizou nem negou as buscas: apenas perguntou à polícia se ainda havia interesse na medida. Em resposta, a delegada respondeu que 140 dias já haviam se passado desde o pedido e que a demora havia inviabilizado as buscas."O tempo decorrido resultou na perda de oportunidade, bem como vulnerabilizou o sigilo da ação", queixou-se.

A delegada afirmou, ainda, que o pedido de documentos feitos pelo Ministério Público por meio de ofícios, conforme sugerido pela PGR, poderia "alertar os detentores de informações relevantes".

 

Ministro não admitiria interferência, diz ex-diretor

 

Diretor-geral da PF da época, Souza disse ao UOL, por telefone e mensagens, que a saída de Denisse do caso não teve a ver com o pedido de buscas feito por ela.

"Se ele não se importou com base em tudo que foi dito e explicado, o que dirá os outros", continuou.

Souza disse que, apesar de o primeiro despacho ordenar a troca de setor e de delegados do caso, Denisse iria conduzir as investigações da Operação Lume, mas em outro setor. "Ela iria junto: o inquérito iria para o Sinq, com ela junto", afirmou ele à reportagem, por telefone. "Só que ela não quis ir pro Sinq."

O ex-diretor da PF contou ter discutido o tema por telefone com Moraes, do STF, explicando a situação. "O único local na sede em que se toca inquérito é dentro do Sinq." Segundo ele, definiram que a delegada continuaria no caso, mas na unidade regional de Brasília. "Ele concordou."

Rolando Alexandre de Souza, ex-diretor-geral da PF | Imagem: Pedro Ladeira - 27.out.20/Folhapress

 

A reportagem perguntou se Souza tratou do tema com o então ministro da Justiça, André Mendonça. "Todo mundo sabia", respondeu. Ele afirmou que o conhecimento dele se deveu a notícias na imprensa à época.

Souza afirma não ter tratado da possível busca no Planalto na conversa com Moraes: "Nunca ninguém falou de mandado de busca".

A reportagem questionou se ele foi informado da busca e apreensão no Planalto, mas não houve resposta.

O ex-diretor da PF ameaçou processar o UOL. "Se botarem uma coisa que eu acho que é mentira, eu aciono judicialmente. Boa sorte, obrigado."

A assessoria do ex-ministro da Justiça André Mendonça disse que ele não comentaria, mas interlocutores informaram que ele desconhece o tema. Igor Romário e Denisse Ribeiro não quiseram dar entrevistas.

 

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