
Há mais de um ano, o país soube que um amigo do presidente Jair Bolsonaro (sem partido), o ex-policial Fabrício Queiroz, depositou cheque de R$ 24 mil na conta da primeira-dama Michelle Bolsonaro, uma operação considerada atípica pelo Coaf (Conselho de Controle de Atividades Financeiras).
Queiroz e o filho mais velho do presidente, o senador Flávio Bolsonaro (sem partido-RJ), são investigados por suspeita de lavagem e desvio de dinheiro da Alerj (Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro), em um esquema de "rachadinha" de salários de servidores.
Desde então, Bolsonaro e Michelle evitam falar do caso. Durante todo esse período, o presidente se limitou a dizer que o dinheiro era para ele, e não para a primeira-dama, e que se tratava da devolução de um empréstimo de R$ 40 mil que fizera a Queiroz. Alegou não ter documentos para provar o suposto favor, no valor de um automóvel zero quilômetro, modelo básico.
O casal palaciano renovou o silêncio sobre as circunstâncias do episódio durante mais de um mês, período em que foi questionado pelo UOL, que enviou mais de dez perguntas a assessores e advogados.
Uma das poucas vezes em que o presidente tentou explicar a situação foi marcada pela tensão.
Em 20 de dezembro, dois dias depois de uma busca e apreensão em uma empresa de Flávio Bolsonaro, jornalistas à porta do Palácio do Alvorada perguntavam ao presidente sobre a situação de seu filho.
Em dado momento, o chefe do Executivo começou a discorrer sobre acusações que, segundo ele, teriam se mostrado infundadas. E, por iniciativa própria, abordou o cheque na conta de Michelle.
"O caso da minha esposa é a mesma coisa. Eu é que emprestei o dinheiro. Eu é que emprestei. Eu conheço o Queiroz desde 85. Foi meu soldado na brigada paraquedista. Se ele, se ele cometeu algum deslize, ele que responda. Não sou eu." Jair Bolsonaro, presidente da República
Um repórter voltou perguntar sobre o filho do presidente. Bolsonaro respondeu: "Você tem uma cara de homossexual terrível, mas nem por isso eu te acuso de ser homossexual".
Em outro momento, um jornalista perguntou: "O senhor tem algum comprovante?". Resposta do presidente: "Ô, rapaz, pergunta para a tua mãe o comprovante que ela deu pro teu pai, tá certo?". E continuou:
"Comprovante de tudo? Pelo amor de Deus. Você me empresta... Fica quieto! Você tem nota fiscal desse relógio que está contigo no teu braço? Não tem! (grita). Não tem. Você tem nota fiscal do teu sapato? Não tem, porra! Você tem do teu carro, talvez não tenha nota fiscal, mas tem lá o DUT, o documento. Tudo pro outro lado tem que ter nota fiscal e comprovante? Eu conheço o Queiroz desde 85. Nunca tive problema com ele. Pescava comigo. Andava comigo no Rio de Janeiro. Tinha que ter um segurança comigo. Andava com meu filho. Aí, de repente, se ele fez besteira, responda pelos atos dele."
Desde 20 de dezembro, o UOL tenta entrevistar o presidente, Michelle ou seus representantes. Perguntas como estas permanecem sem nenhum esclarecimento:
A reportagem procurou a Secom (Secretaria de Comunicação) da Presidência, pessoalmente, por telefone e por email, antecipando as perguntas para uma entrevista com o presidente, a primeira-dama ou seus representantes. Entre 20 de dezembro e 22 de janeiro, a Secom negou informações três vezes, dizendo "o Palácio do Planalto não comenta".
O UOL ainda tentou conversar com o advogado de Jair e Flávio Bolsonaro, Frederick Wassef, para esclarecer questões em aberto sobre o episódio, mas não houve respostas para as perguntas. A reportagem procurou Fabrício Queiroz, mas não o localizou.
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