
Jair Bolsonaro disse que postou "sem querer" um vídeo incitando golpe de Estado em seu depoimento à Polícia Federal, nesta quarta (26). Confirma, dessa forma, uma de suas características mais marcantes: tigrão contra a democracia junto aos seus apoiadores nas redes sociais, tchutchuca diante das autoridades policiais.
À PF, ele disse que tentou salvar o vídeo para ver depois e acabou publicando-o, abraçando o modelo padrão de desculpa para quem faz porcaria nas redes sociais.
Ainda tentou se vitimizar, esporte em que é medalhista, dizendo que estava internado em um hospital em Orlando na ocasião. Jair fugiu para a Flórida em 30 de dezembro exatamente para evitar ser responsabilizado pela tentativa de golpe de Estado que fomentou durante meses e que viria a ocorrer pelas mãos de seus seguidores em 8 de janeiro. Tem provocado humor involuntário ao dizer que a prova de seu não-envolvimento é que estava morando longe.
Até as falecidas carpas do Palácio do Alvorada sabiam que quem posta nas redes de Jair é o vereador federal Carlos Bolsonaro. E considerando que papi sempre deu carta branca ao filhote para falar em seu nome, é responsável por tudo o que aparece por lá.
Aliás, engano seria enviar nudes ao grupo de parlamentares do PL ao invés de encaminhar à esposa. O que ocorreu foi um apoio a uma tentativa de golpe de Estado.
Com o país ainda perplexo diante de uma horda de bolsonaristas que invadiu, vandalizou e roubou o Palácio do Planalto, o Congresso Nacional e o STF, Bolsonaro incentivou ainda mais a violência, postando no Facebook, dois dias depois, o conteúdo que promovia o golpismo.
Por conta disso, o ministro Alexandre de Moraes determinou que fosse ouvido no inquérito que investiga os autores intelectuais dos atos golpistas a pedido da Procuradoria-Geral da República. A PGR acredita que Jair pode ter "incitado a perpetração de crimes contra o Estado de Direito".
Nas semanas anteriores à tentativa de golpe, Carluxo vinha tomando cuidado para evitar publicações nas contas pessoais do pai que produzissem provas de que ele estava incitando os protestos contra a democracia. Mas a postagem da noite de 10 de janeiro, mesmo tendo sido deletada horas após, foi um recado explícito ao seu rebanho considerando o contexto em que estávamos: vão em frente!
Como os Três Poderes e a sociedade felizmente se uniram para dar uma resposta forte ao ocorrido, o recado flopou.
O vídeo mostrava parte de uma entrevista do bolsonarista Felipe Gimenez, um dos procuradores de Mato Grosso do Sul, divulgando a manjada mentira de que a eleição foi fraudada e que o sistema eletrônico de votação não é confiável. Na postagem de Bolsonaro, destacava-se a legenda: "Lula não foi eleito pelo povo, ele foi escolhido e eleito pelo STF e TSE". Esse tipo de discurso era exatamente o mesmo que guiou milhares de seus seguidores.
Durante anos, Jair foi tigrão com a democracia. Difundiu que as urnas eletrônicas eram corrompidas e manipuladas em nome de Lula, usou técnicos das Forças Armadas para tentar colocar em dúvida a lisura da corte, transformou os chefes do TSE (Luís Roberto Barroso e, depois, Alexandre de Moraes) em alvos de seus fãs, colocou embaixadores estrangeiros em um espécie de "cercadinho" para atacar o sistema eleitoral brasileiro, armou seus seguidores através de decretos e os conclamou a pegarem em armas para defender sua visão golpista.
Estruturou, pois, um golpe de Estado. E, depois que ele aconteceu, publicou um vídeo, reafirmando tudo o que havia dito.
Chamado agora a depor na PF, ficou tchutchuca. Tal como tem sido tchutchuca a defesa adotada por ele junto ao TSE, ajoelhando-se aos ministros em busca de clemência uma vez que sua inelegibilidade para as eleições de 2026 e 2030 desponta no horizonte. Chega a dizer que o tribunal tem "postura leal e institucionalmente irmanada com a genuína proteção da democracia", como apurou o Painel da Folha de S.Paulo, após ter jogado a corte aos leões.
Na investigação de quem idealizou os atos golpistas, os caminhos vão apontando para Jair. E foram tantas provas que produziu contra si mesmo que vai ser difícil fugir dessa, mesmo com sua tropa de choque derramando desinformação na CPMI do Golpe no Congresso Nacional.
Uma das consequências de jurar que publicou o vídeo "sem querer" é chamar de otários seus seguidores mais fiéis que celebraram a postagem.
Alguns vão dizer que isso é apenas tática do capitão para se desvencilhar de uma perseguição judicial. Já os mais espertos vão saltar fora.
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